A força dos rótulos que destroem o consenso

Tudo o que escreverei abaixo é fruto de minha reflexão. Não tenho receio de dividir essa opinião com meus leitores. Ontem mesmo eu o fiz no seminário que debateu as mudanças no Código Florestal.

Confesso que apesar de ter sido presidente da Comissão de Meio Ambiente e secretário de Meio Ambiente do Pará, ainda sou um aprendiz em temas ambientais. É que as forças que se movimentam nessa área estão de tal forma rotuladas que impedem que avancemos.

Em 2007, na Comissão de Meio Ambiente, chegou-se a construir um texto que aprimorava a legislação ambiental e que agradou à maioria dos diversos grupos que opinavam sobre o tema. Na época, o deputado Jorge Khoury era o relator da matéria.

Tudo parecia bem, mas na votação voltou à cena o impasse. A grande maioria aceitava as mudanças com mais facilidade, mas dois grupos se opuseram radicalmente a qualquer alteração. Estes pertenciam aos extremos. De um lado os radicais do movimento ambientalista e de outro os que defendem os interesses dos produtores rurais .

As opiniões exaltadas foram de tal forma contundentes que inviabilizaram a proposta que a grande maioria considerava razoável.

Desde então, o conflito não retroagiu. Ao contrário, só se intensificou. É um debate pautado por emoções fortes e pelos rótulos. Se você acha que algo na legislação deve mudar, logo lhe chamam de ruralista. Se é o contrário, logo lhe carimbam o adjetivo ecologista ou pior… xiita. E não pára aí: outras “contribuições” surgiram: nacionalistas agora são chamados os que defendem a produção e entreguistas a serviço de ONGs internacionais são denominados que desejam preservar a floresta.

Confesso que me pergunto: como sair desse impasse? Parece-me que o problema está nos radicalismos que nada acrescentam. Precisamos superar a opressão dos extremos. Meu temor é que, pautados pelos radicais, não façamos nada. A ilegalidade só beneficia os mal-intencionados.

O Código Florestal tem 45 anos. É, portanto, de 1965, época em que a realidade do povo brasileiro e o nível de ocupação do solo em nosso país eram bem diferentes. Certamente não é uma obra perfeita e precisa considerar as novas tecnologias que surgiram, bem como as contribuições da ciência e da academia. Portanto, é necessário compreender: o Código Florestal não é imutável. Ao contrário: é bem passível de modificações!

E o lugar para que deve ocorrer esse debate é o Congresso Nacional! Com todas as nossas imperfeições de representação, ainda é o Congresso o local mais democrático para reunir todas as opiniões antagônicas e construir um consenso que vai beneficiar o País.

Há um aspecto que discordo de Zequinha Sarney e do próprio Jorge Khoury: se formos suspender a votação das alterações do CF por causa da possível “contaminação” em ano eleitoral, deveríamos estender a medida a todas as matérias, já que tudo o que se vota na Câmara afeta diretamente a vida dos brasileiros e sempre possui os defensores e os que lhe são contrários. Defendo que cada um adote atitude de bom senso e assuma o que pensa perante seus eleitores.  

Outra lacuna que considero importante e defendo veementemente é a presença mais intensa da Academia nesse debate, pesquisando e oferecendo subsídios para o debate em bases técnicas.

Por fim, devo dizer: todos concordam que não precisamos mais desmatar um centímetro de terra na Amazônia. Basta utilizar as áreas degradadas. Mas, antes disso, precisamos de legislação clara, atualizada e forte. Não precisamos deixar de fazer as coisas com medo de destruir a natureza. Nosso desafio hoje é descobrir como fazer as coisas corretamente. Não fazer é péssimo; como fazer é o caminho.

Anúncios

Tags: , , , , ,

Uma resposta to “A força dos rótulos que destroem o consenso”

  1. Ciro Siqueira Says:

    Belo texto.
    Creio que a questão seja como sair da guerra de rótulos. Que é necessário sair, me parece claro. Mas como?
    Os radicais, de parte a parte, sabem bem que podem usar o debate passional para obstar qualquer tentativa de modernização da lei.
    Me parece que a questão é, como sair dessa esparrela?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: