Capitalização da Petrobrás: um abacaxi criado pelo governo

O governo Lula se meteu numa enrascada profunda com a encrencada capitalização da Petrobras — e, até agora, não demonstra ter a menor idéia de como alcançar a superfície.

O valor de mercado da estatal não para de cair. Ninguém tem certeza se a data de 30 de setembro para a bilionária capitalização é para valer. E, para piorar, o processo até aqui é recheado de sombras.

Seja como for, nos próximos dias, o governo terá que dar uma resposta menos gasosa ao mercado, aos acionistas e à população, que assiste a essa peça de enredo truncado. As perguntas são coisas aparentemente simples, mas escondem respostas complexas:

*A data da capitalização está mantida?

*Qual será, afinal, o preço do barril que valerá na capitalização? Seis dólares, como quer a Petrobras (e os acionistas minoritários, entre eles os fundos de pensão e de investimentos)? Ou dez dólares, como quer o governo?

*Se optar pelo valor mais baixo, a capitalização não ficará exposta ao risco de o Ministério Público tentar impugnar o processo, alegando que a União poderia ter conseguido mais?

*Como arbitrar um novo valor para o barril? Quais os parâmetros?

Talvez tivesse sido mais simples se o governo fixasse um preço mínimo para os barris e realizasse um leilão. Só que neste caso uma Shell, uma OGX ou uma ExxonMobil poderiam arrematar parte do petróleo do pré-sal.

Essa solução seria um crime lesa-pátria para um governo que se orgulha de seu nacionalismo — imagine, ser chamado pelos movimentos sociais pelo terrível adjetivo de “entreguista” é mesmo para morrer de vergonha…

A Petrobras pode até mudar a data do processo de capitalização. Não poderá, contudo, esticar demais o prazo. Seja por que não tem mais condições de adiar seus investimentos (a estatal prometeu investir 88 bilhões de reais este ano; e só o fará se tiver o dinheiro da capitalização). Seja por que chegou ao seu limite de endividamento: não dá para pedir mais um centavo aos bancos.

Há também um fato que vem passando batido na crise. É um personagem quase oculto do processo: Dilma Rousseff, que centralizou as decisões do modelo de exploração do pré-sal e até cinco meses atrás presidiu o conselho de administração da Petrobras.

Cabe a ela, portanto, parte das explicações pelo processo turbulento que já levou a Petrobras perder 25% de seu valor de mercado desde o começo do ano.

Isso a atrapalhará no dia 3 de outubro? Não ajuda, é certo. Dificilmente, porém, terá condições de lhe tirar uma quantidade de votos que faça diferença na disputa com José Serra — sobretudo agora em que a distância é bastante confortável para ela.

O motivo é simples. Basta um Ibope ou um Datafolha da vida ir às ruas e perguntar se o brasileiro sabe o que é  “capitalização da Petrobras”. Não sabe. Não tem a menor ideia. O governo conta com esse alheamento para esconder seus fracassos.

Independentemente do pouco efeito nas urnas, trata-se de uma encruzilhada que terá que ser resolvida com celeridade. Antes que a atual gestão da Petrobras fique conhecida por se assemelhar demais com a administração da venezuelana PDVSA.

Por Lauro Jardim (original aqui)

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