Os sem-piso

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Palafita amazônica. Foto de Manoel Neto.

Anualmente, quando as águas do rio Amazonas sobem, um tipo peculiar de desabrigado aparece na região Amazônica: os sem piso. Não se trata de trocadilho ou qualquer tipo de brincadeira, mas de uma situação real, calamitosa, pouco compreendida pelo restante do Brasil.

É que as casas dos ribeirinhos são, em geral, palafitas. Assim, quando as águas do rio sobem, o piso das residências é inundado e as pessoas pisam diretamente na água. No mais das vezes, as casas resistem à intempérie, de modo que os moradores não podem ser considerados como “sem teto”; mais apropriado seria tratá-los como “sem piso”.

É uma modalidade diferente do flagelado sem-teto do sul-sudeste. E com os nossos sem-piso, a Defesa Civil nacional ainda não sabe lidar. Acostumados a enviar remédios, colchonetes e alimentos para vítimas de enchentes no sul-sudeste, os órgãos de defesa civil estão sempre dispostos a enviar as mesmas coisas para as vítimas de enchentes na Amazônia. Mas o cenário é outro. Na Amazônia, poucos vão para escolas e ginásios de esportes. A maioria permanece em suas casas. Para estes, cujo chão está tomado pela água, a solução é dormir na rede, como é costume geral na Amazônia. Assim, de nada adianta mandar colchonetes, pois eles são rigorosamente inúteis.

Por outro lado, há algo completamente útil e que não se envia: madeira! Com madeira, os ribeirinhos fazem novas pontes e novos pisos para suas casas, solucionando o problema, até as águas baixarem. Mas, falar em madeira na Amazônia é como falar de corda em casa de enforcado: assunto sensível, cercado de tabus.

Nossas autoridades fariam um belo e efetivo trabalho se destinassem a madeira extraída ilegalmente na Amazônia, apreendida pelo IBAMA ao longo do ano, ao socorro das vítimas na época da enchente.

Tudo isso me vem à mente porque estamos muito próximos de, na região do Baixo Amazonas, no oeste do Pará, repetir o cenário da grande enchente de 2009. Milhares de famílias estão sendo afetadas pela enchente deste ano. E do que precisam? De redes e de madeira. Dispensam-se os colchonetes!

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Uma resposta to “Os sem-piso”

  1. Cleuma Says:

    Apesar de residente em Porto Velho, sou oriunda do oeste do Pará (Monte Alegre), cidade que visito anualmente, conhecendo bem os “sem piso”. Parabenizo-o pela preocupação e sugestão prática para amenizar a agonia desses irmãos ribeirinhos.

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